Religião: Preciso Escolher Uma Só?
Chegou um momento da minha vida em que me coloquei em cheque sobre seguir ou não uma religião, considerar apenas a Bíblia como ‘manual da vida’ ou fazer um compilado do que outras religiões trazem e que me fazem sentido. Uma coisa é sabida e com a minha mais genuína certeza: Eu creio em Jesus e em seus ensinamentos contidos na Bíblia. Maaaas, vem o ponto X, que me levou à escrita deste artigo. Posso, além disso, também xeretar outros livros de outras doutrinas e religiões? Posso euzinha ter meu próprio juntado de crenças, e, ainda assim, me considerar Cristã?
Para encontrar essas respostas, tive que provocar alguns outros questionamentos em mim. O primeiro deles: Por que me incomoda pensar que eu tenho que tomar um único partido sobre uma coisa? Porque me incomoda pensar que serei julgada por isso? Porque me importo com o julgamento alheio, se realmente vier?
Acredito que essas respostas, inicialmente, podem vir de um conceito puramente dogmático. Religião é sim um assunto considerado bastante polêmico – eu diria até mesmo que, em certos contextos, “perigoso” – como pode ser nesse caso, onde eu tenho tendências explícitas a seguir não apenas uma única ou talvez nenhuma. É um assunto delicado, sem sombra de dúvidas, e tem suas razões para isso. Muito complexas, por sinal, pois, por trás de tudo isso, existe uma combinação de fatores individuais, históricos, emocionais, sociais, culturais e políticos. Vejamos.
Crenças Pessoais e Verdades Identitárias
Para muitos, a religião não é apenas um conjunto de rituais, mas sim o alicerce de sua moral, ética, propósito e visão de mundo. E isso é muitíssimo sério, pois envolve convicções profundas sobre a origem da vida, o motivo da existência e o que é “certo” ou “errado”. Essas ideias moldam a identidade das pessoas — quem elas acreditam ser e como veem o mundo. Questionar a crença de alguém é, muitas vezes, visto como questionar a própria validade de sua vida e pode ser sentido até como uma ofensa pessoal, e não apenas um desacordo de opinião.
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E, para complicar um pouco mais, muitas religiões se baseiam na premissa de que possuem a “única verdade” ou o “único caminho” para a salvação/iluminação. Quer coisa mais delicada que essa? É óbvio que isso naturalmente vai gerar um conflito quando essa verdade se chocar com as verdades de outros grupos ou com a ciência. Cada um com a sua e, ainda por cima, tentando enfiar no outro, goela abaixo, que a sua é a verdadeira e melhor. Qual a chance disso dar certo?
História de Conflitos e Guerras
Infelizmente, a história está repleta de exemplos onde a fé foi usada como justificativa para guerras, perseguições e divisões – e nem precisamos ir tão lá atrás no passado, pois nosso presente está cheio de diversos conflitos entre grupos religiosos modernos. Embora a religião nem sempre seja a causa raiz desses conflitos (que geralmente também envolvem política, terra e recursos – e, claro, poder!), ela é frequentemente o elemento mobilizador e o divisor de águas mais eficaz. É claro que esses antecedentes fazem com que, até hoje, discutir religião desperte tensões e memórias coletivas dolorosas.
Mistura de poder e política
Religião e poder político frequentemente se entrelaçam – o que quase nunca é bom. Em muitas nações, a religião exerce uma forte influência sobre a legislação, a política e as políticas públicas (por exemplo, questões de aborto, direitos LGBTQIA+, educação, etc). Historicamente, líderes religiosos e instituições usaram a fé para exercer poder e controle sobre grandes populações e, o que é pior: suas crenças religiosas serviam para justificar leis, excluir grupos ou impor comportamentos e valores a toda a sociedade, beirando, muitas vezes, à corrupção, manipulação e opressão.
Religião talvez fosse uma coisa boa em sua totalidade se o seu alicerce fosse construído em cima de Religiosidade e Espiritualidade, e não como uma disputa ideológica, onde a instituição que a lidera e seus governantes, a guiam conforme suas regras, interpretações e interesses próprios. (Pronto: já falei o suficiente para provar que esse é um assunto realmente perigoso de debater abertamente).
Medo de desrespeito ou intolerância
Falar de religião exige delicadeza e empatia. O mundo abriga uma vasta diversidade de fés (Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo, etc.), cada uma com suas próprias regras, deuses e profetas. A convivência dessa pluralidade exige um alto grau de tolerância e respeito, que nem sempre é alcançado. Exige muita maturidade de sentir e não apenas conceitual.
A religião é um poderoso marcador de identidade cultural e social e, como há muitas tradições diferentes (e dentro delas, muitas interpretações), as diferenças de fé podem ser exploradas para criar divisões, exclusão e, em casos extremos, perseguição e violência (a chamada Intolerância Religiosa). É facinho, facinho, que alguém se sinta desrespeitado ou mal compreendido. Assim, o medo de “ofender sem querer” faz muita gente evitar o tema.
A polêmica
A religião é polêmica porque fala do que há de mais íntimo no ser humano (fé, sentido e moral) – toca no cerne do que as pessoas acreditam ser verdadeiro e significativo, e, por causa de sua influência na identidade e no poder, ela pode ser usada tanto para unir e promover a paz, quanto para dividir e justificar ações prejudiciais.
O “certo” ou “errado” sobre as coisas é relativo. Cada pessoa com sua crença tem um entendimento sobre o que julga ser bom ou ruim para ela e para a humanidade. Na filosofia, isso se aproxima muito do que é chamado de Relativismo Moral ou Relativismo Ético. A ideia de que o “certo” e o “errado” não são universais, mas sim construções humanas que variam conforme a cultura, a religião, a época e a experiência de cada pessoa, talvez implique em dizer que o melhor é que cada um defina o seu.
O maior valor dessa perspectiva é o respeito à diversidade, que encoraja a aceitação das diferentes visões de mundo (religiosas ou não) e é um motor contra a intolerância. Se não há uma verdade moral absoluta, ninguém tem o direito de impor sua moralidade a outro.
O problema, e a razão pela qual a religião se torna polêmica e, por vezes, perigosa, surge justamente quando a visão particular de “bom” de um grupo entra em conflito com a visão de “bom” de outro, ou, pior, quando ela prejudica outro grupo.
O conflito não costuma ser somente sobre rituais ou vestimentas, mas sobre a aplicação prática de dogmas na vida em sociedade. Veja como o “bom para você” pode se chocar com o “bom para o outro”:
- Em algumas culturas, comer certos alimentos é um tabu religioso; em outras, é parte do cotidiano.
- Em certas tradições, o casamento arranjado é um valor sagrado; em outras, seria visto como uma limitação da liberdade individual.
- Em algumas crenças, um tratamento médico moderno (como transfusão de sangue) é proibido por Deus e prejudicial à alma; em outras, seria visto como um ato de irresponsabilidade e negligência colocar o necessitado em risco de morte.
- Algumas religiões acreditam que certas orientações sexuais ou identidades de gênero são pecado e moralmente condenáveis; em outras, essa interpretação pode se traduzir em discurso de ódio, violência, ou leis que negam direitos civis a pessoas LGBTQIA+.
Quando olhamos por esse ângulo, o certo e o errado são subjetivos e variam com a crença. Reconhecer que a experiência espiritual é pessoal, e que ninguém tem o monopólio da verdade, mostra tolerância e empatia. Ao mesmo tempo, algumas pessoas argumentam que, mesmo havendo diferentes visões, ainda precisamos de valores éticos mínimos compartilhados (como respeito à vida, à liberdade e à dignidade humana) para que a convivência seja possível. Ou seja, o desafio está em equilibrar o respeito à diversidade com a busca por princípios comuns que permitam o diálogo e a paz social.
Em outras palavras: A sabedoria está em entender que podemos discordar profundamente — e ainda assim nos tratar com respeito e humanidade. Mas ô coisinha que não parece tão simples assim na prática. Não é não?
Agora vamos a um outro questionamento que me surgiu: Os objetivos das diferentes religiões. Elas não deveriam ser mais ou menos similares: ou seja, pregar o bem, o amor, … coisas nesse sentido? Ou eu estou mucho lôca?
Em minhas pesquisas e reflexões, entendi que, sim, em essência, a maioria das religiões — apesar das enormes diferenças de rituais, crenças e símbolos — compartilha um núcleo ético muito parecido, que gira em torno do amor, da compaixão, da justiça e do respeito ao próximo.
Se olharmos com atenção, quase todas as tradições espirituais trazem mensagens muito semelhantes:
- Cristianismo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
- Budismo: “Evita fazer o mal, pratica o bem e purifica tua mente.”
- Islamismo: “Nenhum de vós é um verdadeiro crente até que deseje para o seu irmão o que deseja para si mesmo.”
- Hinduísmo: “Este é o dever supremo: não fazer aos outros o que te causaria dor.”
- Judaísmo: “Ame o seu próximo como a si mesmo.”
- Religiões indígenas e africanas: geralmente enfatizam harmonia com a natureza, respeito pelos ancestrais e cuidado com a comunidade.
Gente! Ou tem alguma coisa muito errada comigo e com a minha cachola OU a coisa tá muito mais clara e fácil do que parece, porque, me soa óbvio: a essência é a mesma! A mesminha! Percebe isso também? No fundo, quase todas ensinam o amor como caminho de evolução. Ou não?
O ponto de convergência é, em um nível ético mais profundo, orientar o ser humano a viver em paz, a tratar o próximo com dignidade e cultivar qualidades internas como compaixão e generosidade.
Vamos recapitular essas semelhanças usando outro exemplo?
- Cristianismo: “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles.” (Mateus 7:12)
- Judaísmo: “O que é odioso para ti, não o faças ao teu próximo.” (Talmud, Shabat 31a)
- Islamismo: “Nenhum de vós verdadeiramente crê até que ame para o seu irmão aquilo que ama para si mesmo.” (Sahih al-Bukhari, Iman 7)
- Budismo: “Não injuries os outros com aquilo que te causa dor.” (Udana-Varga 5:18)
- Hinduísmo: “Não se deve comportar com os outros de forma que seja desagradável para si mesmo.” (Mahabharata)
- Confucionismo: “O que não desejas para ti, não o faças aos outros.” (Analetos 15:24)
O Que Causa o Conflito, Então?
Ser humano é um bichinho danado! Mesmo sabendo que as intenções centrais são similares, o conflito entre as religiões geralmente não está no objetivo final (paz, bem, amor..), mas sim na interpretação e nos meios que usam para atingi-lo.
1. A Doutrina
A doutrina é o “como”. O problema surge quando a ênfase é colocada não no ponto de convergência, mas na doutrina específica que a cerca, ou seja, nas verdades exclusivas. Por exemplo: “Se você prega o bem, mas não aceita que Cristo é o único caminho ou Maomé é o único profeta ou Buda é o iluminado, então seu ‘bem’ não é suficiente, e você está em perigo (ou é meu inimigo).”
2. A Identidade (O “Nós vs. Eles”)
É o “Nós versus Eles”. A religião cria um forte senso de pertencimento. Quando essa identidade de grupo é ameaçada (percepção de que o outro grupo está crescendo ou tentando impor valores), o foco muda do “amor ao próximo” para a defesa do grupo, que muitas vezes se manifesta como medo, exclusão e, tragicamente, violência.
3. O Fundamentalismo
O fundamentalismo é a interpretação inflexível e literal de textos sagrados, muitas vezes descontextualizando ensinamentos de amor e paz para justificar ações de poder, controle ou guerra contra o “inimigo”. O fundamentalista acredita que está fazendo o “bem” absoluto ao purificar a sociedade ou defender a “verdade” de seu Deus.
Portanto…
… os princípios éticos fundamentais são, sim, similares, mas a polêmica e o perigo nascem quando as diferenças dogmáticas, as necessidades de poder e a rigidez da interpretação superam a mensagem universal de compaixão.
Se o verdadeiro propósito espiritual está acima das divisões e centrado no amor, a ideia de uma visão mais universalista não traz mais conforto ao coração e paz de espírito?
Esse artigo está acabando aqui, mas o assunto não! Ainda tem muito conteúdo sobre esse tema pela frente. Confira no Blog.

